Posted by : Rodrigo Zan quarta-feira, 17 de abril de 2013

Um lindo dia amanhecia. O sol brilhava radiante em um céu azul com poucas nuvens brancas, passeando aqui e ali preguiçosamente. Na Floresta dos Céus, o gigante dos céus, o falcão branco, gritava seu kiai de bom dia, tendo como resposta um rugido poderoso do leão branco, senhor da Floresta da Alvorada.

Os ventos não eram mais do que brisas suaves, que convidavam as flores e arvores dos campos e florestas à bailar. Os pássaros cantavam alegremente enquanto pequenos animais como coelhos e cutias, pastavam tranquilamente nos arredores de Celestia, cidade-capital do Império Alpha, morada da raça dos Anjos.

Aos poucos as atividades começavam também na capital. Os celestes que trabalhavam a noite, voltavam para casa, felizes por terem cumprido seu dever, prontos para descansar. Estes eram diferentes dos Anjos diurnos apenas na cor da pele. Pela pouca exposição ao sol, a maioria destes fantásticos seres tinha a pele branca. As únicas partes de seus corpos que não eram afetadas eram as asas, que variavam de acordo com a posição estratégica de cada um.

Os trabalhadores do dia preparavam-se para começar mais um dia de serviço. Alguns iriam para os campos, enquanto outros, trabalhariam no centro de tecnologia e ciência. E outros, a grande maioria, participaria de exercícios de treinamento para aperfeiçoar técnicas de combate individual e em grupo.

Rhamaro não pertencia a nenhum desses grupos. Depois de uma boa noite de sono, finalizando cinco dias de descanso, era hora dele se apresentar novamente no seu posto de vigia na Muralha, posição que ocuparia pelos próximos vinte dias.

Rhamaro pertencia à casta dos Serafins, anjos guerreiros que protegiam o império contra os ataques de outros povos e raças. Normalmente era um serviço tedioso, contando as horas e os dias passarem lentamente, sem nada de interessante e muito menos de espetacular acontecendo.

Nos últimos meses porém, Rhamaro e seu povo estavam enfrentando muitas investidas dos povos do Império Ômega. Por isso, os turnos eram dobrados e o descanso diminuído pela metade. Até para ele, que era o terceiro em comando das tropas do Exército Celestial.

Os Anjos e os Deuses, habitantes do Império Ômega, nasceram na primeira era, chamada Era Divina. Foram criados pelos Soberanos, um grupo de seis imortais invencíveis criados pelo criador para combaterem os Devas e Demons, seres milenares que habitavam a Zona Negra no início dos tempos.

Como os Anjos e Deuses, os Devas e Demons eram imortais, morrendo apenas em batalha, nunca por causas naturais. Isso torna as guerras, batalhas e duelos a última opção a ser tomada pelos seres da Zona da Luz.

A Raça Celeste, como eram chamados os Anjos, eram unidos de uma forma que nenhum outro povo entendia. Sempre colocavam as necessidades de todos antes da sua própria. E nunca, em nenhuma situação, um Anjo lutava com um semelhante.

Eles eram obcecados por suas leis e pela ordem, e o dever com o Império Alpha era o principal motivo de viver da Raça Celeste.

Rhamaro não era diferente. Com seus três metros de altura, era um dos anjos mais altos, perdendo apenas para os Arcanjos e Guardiões. Sendo o quarto em comando do Exército Celestial, Rhamaro se reportava diretamente à Miguel, Marechal Supremo das forças do Império Alpha. Rhamaro era um dos três generais do Exército Celestial, general das forças do ar, conhecidos como Falcões da Alvorada. Esta era a divisão de Anjos treinados para lutar nos céus.

O general era forte, musculoso, e como os outros dois generais, tinha as asas feitas de bronze. Os Guardiões, a mais alta hierarquia celestial, tinham as asas douradas. Os Arcanjos, líderes das castas elementares, tinham asas prateadas, com exceção do Arcanjo Júpiter, o único Arcanjo com asas douradas.

Abaixo dos Guardiões e Arcanjos estavam os Querubins, responsáveis pelo estudo e arquivamento do conhecimento adquirido pelos Anjos; e os Serafins, Ordem à qual Rhamaro pertencia, versados no domínio poderes elementares, empregando-os na arte da guerra. Os Querubins e Serafins eram Ordens, abertas para todos os anjos se candidatarem. Porém, poucos passavam nos testes e eram aceitos.

Rhamaro, juntamente com Uriel e Kariel, ajudaram Miguel a criar a Ordem dos Serafins. Desde então, tornou-se um dos anjos mais próximos do Marechal.

O general celeste saiu na sacada de sua casa e contemplou a vista. Quando foi consagrado general, pode escolher em qual parte da cidade iria construir sua casa. Escolheu a Zona Sul de Celestia, um região localizada na parte mais alta e nobre da cidade, com vista para as imponentes Montanhas Behor, onde nasceu, foi criado e treinado.

- Curtindo um pouco de nostalgia, querido?

A frase foi dita ao mesmo tempo que dois braços, delicados mas firmes, o abraçaram. Rhamaro sentiu a cabeça dela encostar-se em sua nuca. Instantaneamente, o guerreiro celeste deixou seus lábios abrirem-se em um sorriso.

Ele estava vestido com um longo manto branco, amarrado por um cordão dourado. Calçava sandalias também brancas e tinha uma tiara prateada na cabeça. Deixou-se sentir um pouco o abraço antes de responder algo.

- Sempre é bom relembrar de onde viemos. Assim, nos lembramos de quem realmente somos.

Ela o soltou e deu três passos para trás. Ele virou e deparou-se com uma linda anja com o queixo direito apoiado na mão direita, com o cotovelo direito apoiado na mão esquerda, posição de "meditação" preferida de sua amada, usada especialmente quando ela queria debochar de alguém. Frequentemente, esse "alguém" era o próprio Rhamaro.

Com um sorriso travesso nos lábios e os olhos brilhando de divertimento, ela disse:

- Perdoe-me sr. Centelha. Por um momento juro que falava com meu marido, não com o senhor.

Helen era uma das mais lindas celestiais. Tinha o corpo esbelto com formas divinas. Suas asas eram brancas como a neve dos picos dos altos montes, indicando que era uma cidadã comum. Vestia um roupão de cetim e estava descalça.

Mas as aparências enganam, e no caso de Helen, enganam muito. Apesar dos lindos olhos cor de mel e dos cabelos castanhos e cacheados, ela era ninguém menos que uma das três filhas do Arcanjo Marte, líder da casta dos Augúrios.

Os Augúrios eram Anjos que dominavam o poder da premonição. Não eram profetas nem videntes, mas eram capazes de saber como e quando seus inimigos atacariam, através da leitura do corpo e da aura.  Sendo assim, eram praticamente invencíveis em batalha.

Helen pertencia à mesma casta, e só não era o braço direito do pai porque desistiu da posição para casar com Rhamaro. Sendo assim, o Arcanjo não morria de amores pelo general, sentimento que era recíproco.

O que quebrava um pouco o clima era o jeito contagiante de Helen, que não estava nem um pouco preocupada com as posições de seu pai e seu marido, não perdendo nenhuma oportunidade de tirar um bom sarro da cara deles. Exatamente como fez agora.

Rhamaro até tentou fazer-se de magoado, mas não conseguiu. Acabou acompanhando os risos dela, que por sinal eram bem debochados. Realmente, os anos estavam sendo cruéis: ele estava se tornando uma cópia exata de seu pai, o famoso sr. Centelha.

- Você tem razão Helen. Estou ficando ranzinza.

Ele abaixou e acariciou a barriga dela, que mostrava todos os seus oito meses de gravidez saudável.

- E você pequenino? Papai está ficando ranzinza que nem o vovô?

A criança no ventre de Helen se agitou toda ao ouvir a voz do pai. Rhamaro olhou para sua amada e ambos sorriram, abraçando-se.

- Quando você acha que ele nascerá?

- Bem... creio que na próxima semana.

- Já? Mas não falta um mês ainda?

Ela não pode deixar de rir - Meu amor - disse com carinho enquanto acariciava seus cabelos - esta é a última semana do oitavo mês. Normalmente, eles chegam na primeira ou segunda semana do nono mês. - e olhando para ele certa de que o pegara, disse -  Não estava prestando atenção quando Ariel estava explicando, não é?

O sorriso amarelo de Rhamaro falou mais que palavras. Nas consultas com Ariel, Braço direito de Gabriel e grande amigo de Helen, Rhamaro apenas fitava o Anjo e balançava a cabeça algumas vezes em concordância. Seus pensamentos no entanto estavam longe... nas batalhas, na muralha, na sua cama, menos ali.

Mas seu sorriso logo foi trocado por uma expressão preocupada. Não queria que o bebê nascesse antes dele voltar. Ele queria estar com Helen, afinal, era seu primeiro filho. Percebendo o ansiedade de Rhamaro, Helen tratou de acalma-lo.

- Vem aqui, meu lindo. - disse abraçando-o e beijando-o carinhosamente. Quando terminaram o beijo ele começou a falar.

- Eu... eu pensei que... quer dizer... não quero te deixar sozinha, amor... acho que posso falar com Miguel e...

- Não, não é necessário.

- Lógico que é! Exclamou Rhamaro - Não quero você tendo nosso filho sozinha Helen. Darei um jeito de estar aqui...

- Amor.

- Vou trocar meu turno com Uriel. Não, tem que ser Kariel...

- Amor.

- Uriel esta em missão de campo. Talvez se eu falar com...

- RHAMARO!

O grito chamou a atenção dele, pois pra enfatizar, ela abriu as asas e as bateu, jogando uma rajada de vento na cara do general. Quando ela percebeu que tinha a atenção dele, segurou suas mãos e o conduziu até a cama. Quando os dois sentaram, ela prosseguiu:

- Querido quero que me escute bem, ok?

Ele acenou a cabeça, esperando.

- Entenda uma coisa: quando quiser falar como uma matraca, certifique-se que estou sentada, de preferência na cama. Este barrigão é muito pesado.

Rhamaro nem tentou segurar: riu como louco. Só Helen para fazer um comentário desse no meio de um assunto tão sério. Ela o acompanhou nas risadas, feliz pela crise de nervosismo ter passado.

- Amor - disse ela, quando enfim pararam de rir - eu falei com minhas irmãs. Elas estarão aqui comigo.

- Elas conseguiram liberação?

- Sim. Pra falar a verdade, chegam hoje a tarde.

- Fico mais aliviado com elas aqui.

Sorrindo, ela o abraçou - Eu sei, seu bobo. Vai dar tudo certo.

Enquanto estava abraçada com Rhamaro, ela ponderou se devia ou não tocar no próximo assunto. Resolveu ir em frente, já que poderia ser a última vez que se falavam antes do bebê chegar.

- Rhamaro, sobre nossos pais...

Eles se soltaram do abraço. Ele carinhosamente colocou o dedo nos lábios dela e sussurou:

- Eu sei amor.

- Sabe? perguntou ela, segurando as lágrimas.

- Sim, sei. Minha família virá daqui um mês, quando eu estiver aqui. Não será bom nossos pais juntos na mesma cidade. Se isso acontecer, é bem capaz que os Soberanos regressem do universo.

Ela encostou a cabeça no peito dele e deixou-se ficar ali um pouco. Seus pais não eram inimigos, mas o clima era complicado quando os dois estavam juntos, o que seria muito ruim para Aesirph (o bebê).

- Obrigada - sussurou Helen.

Eles levantaram e caminharam para a sacada. Rhamaro e Helen se abraçaram e beijaram-se pela última vez.

- Obrigada por pensar em mim - disse Helen.

- Eu sempre penso em você. Sempre.

- Eu sei. Sempre penso em você também.

Se separaram e olharam um para o outro, de mãos dadas e emocionados.

- Até breve, meu príncipe.

- Até breve, minha princesa.

As mãos se soltaram. Ele abriu as asas e sua forma tremulou. No lugar do manto, sandálias e tiara, estavam agora uma armadura de prata completa, com detalhes dourados e runas antigas de proteção. Nas costas, entre as asas, uma lança dourada descansava verticalmente. No cinto do lado direito, uma bainha de couro de dragão, decorada com pedras preciosas, abrigava a Olho das Estrelas, uma das sete únicas espadas de luz do planeta, feita com pó de estrelas. Foi dada à Rhamaro pelo próprio Gabriel, como recompensa de quando o general dos Falcões da Alvorada salvou a vida do Guardião, em uma batalha contra os Demons.

Um vento mais forte soprou do leste e o anjo alçou voo. Helen ficou ali, observando Rhamaro até depois de sua silhueta ter sumido nos céus. Colocou os dedos da mão direita nos lábios, lembrando do último beijo. Um aperto no coração veio logo em seguida. Teve a forte sensação de que aquele era o último beijo dos dois.

Uma lágrima correu pelo seu rosto. Depois outra. E mais outra. Logo ela estava em prantos. Voltou para dentro e deitou-se na cama, chorando até adormecer.

Infelizmente, ela estava certa sobre isso. Aquele era o último beijo que ela dava em Rhamaro.

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